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abre a tua boca e grita este nome meu - 2018 - xilogravura em papel de arroz - 500 x 70 cm - edição 1/3 + pa 

O trabalho integra um corpo de estudos e operações tradutórias das obras literárias da brasileira Hilda Hilst (1930-2004). Fez parte da exposição Água da Palavra - Quando mais dentro aflora, com curadoria de Galciani Neves, montada em Berlim - Alemanha (2018) e em São Paulo - Brasil (2018/2019). 

A obra discute questão explícita na vida e nos trabalhos da escritora Hilda Hilst: o lado mais profano e banal do ser humano caminha lado a lado com a ânsia de espiritualidade. Em entrevista publicada no "Cardernos de Literatura Brasileira", em 1999, a escritora ressalta: “Posso blasfemar muito, mas o meu negócio é o sagrado. É Deus mesmo, meu negócio é com Deus.”A figura divina reúne atributos quase humanos em muitos poemas de Hilda, mas não é raro permanecer calada, quase indiferente às suas súplicas; ainda assim, a poeta almejou percebe-la, senti-la, toca-la, invocando-a no intuito de abeirar terra e céu, divino e profano, puro e obsceno. Relincho do Infinito, CaraEscura, Sutilíssimo Amado, Pássaro-Poesia, Caracol de Fogo, Cão de Pedra, BruscoInamovível, Cavalo de Ferro Colado à Futilidade das Alturas, Aquele Outro, O GrandeRosto Vivo e Superfície de Gelo Ancorada no Riso foram alguns dos muitos nomes atribuídos a Deus por Hilda Hilst. A artista Karina Machado, em parceria com o músico e artista Eduardo Borém, traduziu em matrizes de gravuras as ondas sonoras de sua voz, registradas durante a leitura de 46 nomes de Deus coletados das obras de Hilda Hilst, irrogados por ela em seus textos e poemas. 

 

"XII.
Estou sozinha se penso que tu existes.
Não tenho dados de ti, nem tenho tua vizinhança.
E igualmente sozinha se tu não existes.
De que me adiantam
Poemas ou narrativas buscando
Aquilo que se não é, não existe
Ou se existe, então se esconde
Em sumidouros e cimos, nomenclaturas
Naquelas não evidências
Da matemática pura? É preciso conhecer
Com precisão para amar? Não te conheço.
Só sei que me desmereço se não sangro.
Só sei que fico afastada
De uns fios de conhecimento, se não tento.
Estou sozinha, meu Deus, se te penso."


(Hilda Hilst - 1984 – Poemas Malditos, Gozosos e Devotos - Da Poesia - São Paulo, Companhia das Letras, 2017)

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"XVII.
Penso que tu mesmo cresces
Quando te penso. E digo sem cerimônias

Que vives porque te penso.
Se acaso não te pensasse
Que fogo se avivaria não havendo lenha?
E se não houvesse boca
Por que o trigo cresceria?
Penso que o coração
Tem alimento na Idéia.
Teu alimento é uma serva
Que bem te serve à mão cheia.
Se tu dormes ela escreve
Acordes que te nomeiam.
Abre teus olhos, meu Deus,
Come de mim a tua fome.
Abre a tua boca. E grita este nome meu."


(Hilda Hilst - 1984 – Poemas Malditos, Gozosos e Devotos - Da Poesia - São Paulo,Companhia das Letras, 2017)

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abre a tua boca e grita este nome meu - 2018 - vista da exposição água da palavra - quando mais dentro aflora, curadoria de galciani neves - hilbertraum - berlim, alemanha - 2018

 

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abre a tua boca e grita este nome meu - 2018 - vista da exposição água da palavra - quando mais dentro aflora, curadoria de galciani neves - instituto adelina - são paulo, brasil - 2018/2019