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A sensação primária de proteção e aconchego veio ao tempo da percepção do embalo e das projeções do corpo que, imerso em água, tendia à origem, apesar da experiência acumulada de ser grande.Perdendo lentamente o sentido de direção, de peso e de toque, mesmo com a pele se ressaltando aos ouvidos, ocupei o espaço juntamente àquele emaranhado de gotas, criando uma interface lúdica com olhos que continuavam vendo o mundo com ar.

Distante da atmosfera de rotina e de atos ágeis do mundo de cima, as coisas aconteciam de forma calma e organizada, permitindo a construção das imagens, ainda que em movimento. O apontar constante para a superfície, ali, tornou-se apenas um gesto entre outros muitos do ballet composto de improviso para registro. No entanto, a força e a dimensão atribuídas ao corpo nu, ao ballet e ao registro instigador da experiência, se retraíram frente a significância dela própria. Afinal, estando completamente mergulhada no novo, por horas, até mesmo respirar parecia apenas um detalhe. Em Sede*, o processo foi certamente personagem; a proposição, o cenário e a obra, uma das possibilidades.

“Agora”, de Arnaldo Antunes

AGORA QUE AGORA É NUNCA

AGORA POSSO RECUAR

AGORA SINTO MINHA TUMBA

AGORA O PEITO A REBUMBAR

 

AGORA A ÚLTIMA RESPOSTA

AGORA QUARTOS DE HOSPITAIS

AGORA ABREM UMA PORTA

AGORA NÃO SE CHORA MAIS

 

AGORA A CHUVA EVAPORA

AGORA AINDA NÃO CHOVEU

AGORA TENHO MAIS MEMÓRIA

AGORA TENHO O QUE FOI MEU

 

AGORA PASSA A PAISAGEM

AGORA NÃO ME DESPEDI

AGORA COMPRO UMA PASSAGEM

AGORA AINDA ESTOU DAQUI

 

AGORA SINTO MUITA SEDE

AGORA JÁ É MADRUGADA

AGORA DIANTE DA PAREDE

AGORA FALTA UMA PALAVRA

 

AGORA O VENTO NO CABELO

AGORA TODA MINHA ROUPA

AGORA VOLTA PRO NOVELO

AGORA A LÍNGUA EM MINHA BOCA

 

AGORA MEU AVÔ JÁ VIVE

AGORA MEU FILHO NASCEU

AGORA O FILHO QUE NÃO TIVE

AGORA A CRIANÇA SOU EU

 

AGORA SINTO UM GOSTO DOCE

AGORA VEJO A COR AZUL

AGORA A MÃO DE QUEM ME TROUXE

AGORA É SÓ MEU CORPO NU

 

AGORA EU NASÇO LÁ DE FORA

AGORA MINHA MÃE É O AR

AGORA EU VIVO NA BARRIGA

AGORA EU BRIGO PRA VOLTAR

 

AGORA 

“Debaixo D’agua”, de Arnaldo Antunes

 

Debaixo dágua tudo era mais bonito

mais azul mais colorido

só faltava respirar

 

Mas tinha que respirar

 

Debaixo dágua se formando como um feto

sereno confortável amado completo 

sem chão sem teto sem contato com o ar

 

Mas tinha que respirar

Todo dia

Todo dia, todo dia

Todo dia

Todo dia, todo dia

Todo dia

Debaixo dágua por encanto sem sorriso e sem pranto

sem lamento e sem saber o quanto

esse momento poderia durar

 

Mas tinha que respirar

 

Debaixo dágua ficaria para sempre ficaria contente

longe de toda gente para sempre

no fundo do mar

 

Mas tinha que respirar

Todo dia

Todo dia, todo dia

todo dia

Todo dia, todo dia

Todo dia

 

Debaixo dágua protegido salvo fora de perigo

aliviado sem perdão e sem pecado

sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar

 

Mas tinha que respirar

 

Debaixo dágua tudo era mais bonito

mais azul mais colorido

só faltava respirar

 

Mas tinha que respirar

Todo dia

Todo dia, todo dia

Todo dia

Todo dia, todo dia

Todo dia